
CANDINHO: UMA ÓPERA PARA TODOS!
O enredo de Candinho foi pensado pelo compositor brasileiro João Guilherme Ripper, a partir da história real de um dos maiores pintores brasileiros do século XX: Cândido Portinari. Para isso, inspirou-se nos quadros do próprio Portinari para escrever a sua história e transformá-la em espetáculo. A ópera retrata a infância de Cândido Portinari. Estruturada em um ato e dez cenas, a obra mistura realidade e ficção ao recriar o quotidiano do vilarejo, as brincadeiras das crianças e as situações que levaram ao despertar artístico de um dos maiores pintores brasileiros. Na trama, o jovem Candinho divide seu tempo entre as aulas com o Padre Josué, os desfiles da banda onde seu pai toca bombardino e as brincadeiras com amigos. Quando o circo chega à cidade, trazendo magia ao povoado, Candinho recebe do palhaço Beringela um sinal na testa para entrada gratuita. Porém, o menino adormece e perde a única apresentação, acordando apenas quando o circo já está a ser desmontado. Num momento tocante, o palhaço Beringela consola o desapontado Candinho e encoraja-o a usar sua imaginação para desenhar o circo que não pôde ver. Este momento marca o despertar do talento artístico do menino, que passa a retratar o seu mundo com uma sensibilidade única, nascendo assim o pintor.

Candido Portinari (1903–1962) foi um dos maiores artistas plásticos brasileiros e uma figura de destaque no modernismo mundial. Nascido em Brodósqui, uma pequena cidade do interior de São Paulo, Portinari cresceu num ambiente rural, rodeado por cafezais e pela rica cultura popular brasileira, elementos que marcaram profundamente a sua obra. Portinari é lembrado não apenas como um pintor excecional, mas também como um cronista visual da vida brasileira. Conseguiu transformar as suas origens humildes e as suas memórias pessoais em arte universal. A sua obra combina beleza, emoção e crítica social, refletindo um profundo amor pelo Brasil e pela humanidade. Características da sua Arte: • Portinari é reconhecido pelas suas pinturas que retratam a vida e a realidade do povo brasileiro. Entre os principais temas da sua obra destacam-se: • A infância e o quotidiano rural: Inspirado pelas suas memórias de criança em Brodósqui, representava brincadeiras, trabalhadores do campo e paisagens do interior. • Questões sociais: Muitas das suas obras denunciavam desigualdades, pobreza e os sofrimentos do povo, especialmente dos trabalhadores rurais. • Uso de cores vibrantes: Portinari utilizava tonalidades intensas, como azuis profundos, vermelhos vibrantes e marrons terrosos, evocando a terra roxa da sua infância. • Grandiosidade e espiritualidade: Criou murais monumentais, como os painéis para o edifício da ONU, em Nova Iorque, que simbolizam a paz e a solidariedade entre os povos. O Neorrealismo. • O Neorrealismo. surgiu no século XX como uma resposta às desigualdades sociais, económicas e políticas, especialmente em países marcados por desigualdades profundas, como Portugal e o Brasil. Este movimento artístico e literário procurava representar a realidade de forma direta, denunciando a opressão, a pobreza e as dificuldades das classes trabalhadoras, mas também exaltando a sua força e dignidade. Na pintura, o Neorrealismo caracteriza-se por: • Foco na realidade social: Representações de trabalhadores, lavradores, pescadores e suas condições de vida. • Estilo figurativo: Uso de formas e figuras reconhecíveis, muitas vezes com traços exagerados, para enfatizar o impacto emocional e social. • Mensagem política e social: Compromisso com a denúncia das injustiças e desigualdades. Candido Portinari e o Neorrealismo. • Embora Portinari não tenha se identificado formalmente como neo realista, a sua obra reflete muitos dos princípios desse movimento, especialmente no que toca à denúncia social e à valorização da vida do trabalhador. Ele foi profundamente influenciado pelas suas origens humildes e pela vida no interior brasileiro, que o inspiraram a criar obras que humanizam os personagens e cenários do quotidiano rural. Assim encontramos várias características Neorrealismo. nas Obra de Portinari como: • Retratos da classe trabalhadora: Obras como "Os Retirantes" e "Café" mostram, de forma comovente, a luta dos trabalhadores rurais contra a fome, a miséria e as condições desumanas. Os lavradores e retirantes, figuras centrais em muitas das suas pinturas, são retratados com dignidade, mesmo em cenários de sofrimento. • Denúncia das desigualdades: Portinari utiliza a sua arte para dar voz aos esquecidos. As cenas de seca, fome e pobreza no Nordeste do Brasil, como em "Criança Morta" (1944), são uma denúncia visual poderosa das desigualdades sociais e das injustiças que marcaram o país. • Valorização das raízes culturais: Ele também celebra a cultura popular brasileira, como em "Meninos Brincando” ou “O Chorinho”, onde exalta a inocência e alegria das crianças no interior, apesar das dificuldades. • Estilo figurativo e expressivo: Portinari utiliza formas simples e expressivas, muitas vezes enfatizando a força, a dor ou a resistência dos seus personagens. As suas cores intensas e contrastantes sublinham a dramaticidade das cenas. • Portinari foi muito além da estética. Ele usou a sua arte como um meio de reflexão social, conectando-se a movimentos como o Neorrealismo pela sua busca de justiça e compromisso com os desprivilegiados. A sua obra não apenas documenta a realidade brasileira, mas também inspira a luta pela dignidade e pelos direitos humanos, tornando-o uma figura essencial na história da arte e na defesa das causas sociais.
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Candinho: Uma Ópera para Todos!" é um projeto de intervenção artística e social que leva a ópera infantojuvenil "Candinho" do compositor João Guilherme Ripper para bairros e comunidades periféricas de Lisboa. Baseada na infância do renomado artista brasileiro Cândido Portinari, esta ópera aborda temas universais como sonhos, descobertas e superação, permitindo uma conexão profunda com as vivências dos jovens das comunidades envolvidas. O projeto busca democratizar o acesso à ópera, tradicionalmente vista como uma arte elitista, transformando-a numa experiência acessível, participativa e significativa para todos, especialmente para jovens de áreas urbanas vulneráveis.

1. Participação no Coro da Ópera: A Voz Coletiva Será formado um coro infantojuvenil, orientado pela maestrina Filipa Palhares, que preparará os jovens para uma apresentação de excertos da Ópera nos seus bairros. Este trabalho será acompanhado por workshops de canto e expressão corporal, envolvendo os jovens em atividades que vão além da técnica vocal, promovendo também o seu desenvolvimento social. Os melhores cantores de cada comunidade integrarão igualmente o Coro na Apresentação Final. 2. Concurso de ideias para cenografia e guarda-roupa: Portinari Re-imaginado Neste desafio, convidamos os jovens a estabelecerem um diálogo criativo entre dois universos artísticos: a ópera e a obra de Cândido Portinari. Em articulação com as escolas locais, e com o apoio dos professores de desenho e trabalhos manuais, pediremos aos jovens que quiserem participar que nos proponham, através de desenhos, ideias para cenografia e guarda-roupa, tendo por base obras selecionadas do mestre brasileiro. Este exercício não só homenageia Portinari como convida os jovens a serem intérpretes visuais, traduzindo a linguagem pictórica em possíveis elementos cénicos. Os melhores trabalhos serão apresentados numa exposição final. 3. Concurso de escrita criativa: As Estórias nas obras de Portinari As telas de Portinari são janelas para mundos por explorar, e neste desafio literário, convidamos os jovens a serem os narradores dessas histórias silenciosas. Perante as obras selecionadas, cada participante torna-se arqueólogo de narrativas: Quem são aquelas figuras enigmáticas? Que segredos guardam aqueles olhares? Que dramas se desenrolam naqueles cenários? A imaginação é o único limite nesta aventura literária onde pintura e palavra se entrelaçam. Os textos mais inspiradores ganharão vida impressa no programa de sala da ópera e permanecerão acessíveis numa plataforma digital dedicada, criando um legado literário que perdurará muito além do espetáculo. Este processo será conduzido também em articulação com as escolas e com a disciplina de português. Estes três desafios representam portas abertas para que cada jovem encontre a sua forma única de contribuir para esta celebração artística coletiva, provando que na ópera, como na vida, há espaço e necessidade para todos os talentos
• Candinho: O protagonista, um menino sonhador e imaginativo, que mais tarde se tornará o grande artista Cândido Portinari. É interpretado por um mezzo-soprano ou tenor jovem. • Branca: Uma menina da mesma idade de Candinho, representando seu primeiro amor infantil. É doce e inocente, interpretada por uma soprano jovem. • Maria José: Sobrinha do professor e a jovem mais bonita do povoado, por quem todos os meninos se apaixonam. Interpretada por uma soprano. • Domenica (D. Gôndola): A mãe de Candinho, uma mulher italiana expansiva e engraçada, com paixão pelo jogo do bicho. Interpretada por um mezzo-soprano. • Lavrador: Figura que representa os trabalhadores do campo e a ligação da comunidade com a terra. Interpretado por um tenor. • Palhaço Beringela: O carismático palhaço do circo, que marca as crianças para entrarem no espetáculo e inspira Candinho a transformar seus sonhos em arte. Interpretado por um tenor. • Padre Josué: O professor severo, mas dedicado, que ensina as crianças do povoado. Interpretado por um barítono. • Batista (Seu Batista): O pai de Candinho, músico que toca bombardino na banda da cidade. Interpretado por um barítono. • Crianças: Um coro infantil ou feminino jovem que simboliza a alegria, a inocência e os sonhos da infância. • Cândido Portinari: Narrador da história e versão adulta de Candinho, que relembra sua infância e explica como ela moldou sua arte. Interpretado por um ator.

O QUE É A ÓPERA? A ópera é uma forma de arte que combina música, teatro, poesia e cenografia para contar uma história. É como uma peça de teatro, mas em vez de os atores falarem, eles cantam, geralmente acompanhados por uma orquestra. As óperas podem ser dramáticas, românticas, cómicas ou até trágicas, e são interpretadas em muitos idiomas, como italiano, alemão, francês, inglês e até português. Esta forma de arte tem cerca de 425 anos. Nasceu na Itália no ano de 1600 e tornou-se uma das expressões artísticas mais ricas, completas e emocionantes. Os intérpretes da ópera não só têm de cantar de forma poderosa, mas também representar bem as suas personagens, o que a torna muito especial. As Primeiras Óperas A ópera nasceu como uma tentativa de recriar a experiência do teatro grego antigo, no qual se acreditava que a música e o canto desempenhavam um papel importante no drama. Um grupo de intelectuais, músicos e poetas em Florença, conhecido como a Camerata Florentina, queria juntar música e poesia de uma forma que fosse mais expressiva e emocional. Eles acreditavam que a música poderia intensificar o impacto das palavras, e assim criaram um novo género artístico. As primeiras óperas inspiraram-se em mitos da antiguidade grega (como o mito de Orfeu e Eurídice) e misturavam canto, instrumentos e encenação teatral, o que incluía cenografia, guarda-roupa e até tecnologia que permitisse ter efeitos especiais. A partir daí, a ópera começou a evoluir e a espalhar-se pela Europa, tornando-se uma das formas de arte mais sofisticadas e populares. As Profissões da Ópera Quais são as profissões da Ópera? Profissões no palco • Cantores de ópera: • Soprano (voz feminina aguda) • Mezzo-soprano (voz feminina média) • Contralto (voz feminina grave) • Tenor (voz masculina aguda) • Barítono (voz masculina média) • Baixo (voz masculina grave) • Maestro: Conduz a orquestra e coordena os cantores. • Músicos da orquestra: Tocam instrumentos para acompanhar os cantores. • Coralistas: Cantores que atuam no Coro ou em grupo nas cenas de coro. • Bailarinos: Dançam em cenas que exigem coreografia. • Figurantes: Participam em cenas sem cantar ou falar, como personagens secundários. • Atores • Compositor: Cria a música da ópera (no caso de novas produções). • Libretista: Escreve o texto ou as letras da ópera. • Encenador (ou diretor de cena): Responsável por criar a parte teatral e visual da ópera. • Cenógrafo: Desenha e cria os cenários. • Figurinista: Cria os trajes usados pelos cantores e atores. • Maquilhador e cabeleireiro: Cuida da caracterização dos artistas. Profissões nos bastidores • Iluminador: Planeia e controla a iluminação do espetáculo. • Tecnicos de Som e de Luz: Garantem a qualidade do som e da luz do espetáculo. • Outros Tecnicos e Criadores: VJ, Carpinteiros, Costureiras, Engenheiros, etc... • Técnicos de palco: Montam os cenários e objetos de cena. • Diretor artístico: Supervisiona a visão geral da produção. • Produtor: Planeia e organiza os recursos financeiros e logísticos. • Assistente: Ajuda na coordenação entre os cantores, cenografia e encenação. • Frente de Casa: Responsáveis pelo acolhimento do público. • Tecnico de Bilheteira: Garante a venda dos bilhetes. A Ópera como modelo de intervenção social A ópera revela-se como uma das mais extraordinárias manifestações artísticas da humanidade, precisamente pela sua natureza colaborativa e multidisciplinar. Muito mais do que um simples espetáculo musical, a ópera é um universo onde convergem múltiplas formas de expressão artística, criando uma sinfonia de talentos que transcende a soma das suas partes individuais. Esta interdependência criativa transforma a ópera num laboratório perfeito para o desenvolvimento humano, especialmente entre os jovens. Ao participarem neste processo, as crianças e adolescentes descobrem que não existe hierarquia entre as artes – há apenas diferentes formas de contribuir para o todo. O jovem tímido, que não gosta de holofotes, pode recontar a história através de um exercício de escrita criativa; aquele que tropeça nas palavras pode descobrir na dança e no movimento a sua eloquência; o que desenha compulsivamente nos cadernos pode ver os seus traços ganharem vida nos figurinos e nos cenários. Isto para além dos que cantam, representam ou tocam. A ópera ensina, assim, uma lição fundamental: todos somos necessários quando colocamos o nosso talento ao serviço de algo maior. Mais do que uma simples arte, a ópera é pedagogia viva, é construção de comunidade, é a prova tangível de que quando unimos os nossos talentos individuais, por mais diversos que sejam, podemos criar algo que nos eleva e completa enquanto seres humanos, num verdadeiro exemplo de trabalho em equipe.

SAIBA MAIS


A infância de Portinari nos palcos — “Candinho” estreia esta semana em São Paulo e prepara nova etapa em Portugal
OBRAS QUE DERAM ORIGEM A ESTA ÓPERA










Informações Técnicas
Equipe Artística
Música e Texto: Joao Guilherme Ripper
Encenação: Mário Alves
Direção Musical: José Eduardo Gomes
Direção Coral e Preparação das Crianças: Filipa Palhares
Ensemble ProART
Piano, preparação de cantores e trabalho de pronuncia brasileira: Anderson Beltrão, João Elias e Ricardo Vicente
Candinho (menino/jovem tenor): resulta de casting
Branca (menina/soprano jovem): resulta de casting
Maria José (soprano): Marilia Zangrandi
Gôndola/Domenica (mezzo-soprano): Cátia Moreso
Lavrador/Palhaço Beringela (tenor):
Padre Josué/Batista (barítono): André Henriques
Candido Portinari (ator/narrador): resulta de casting
Equipe Técnica
Supervisão Artística: Filipa Palhares e André Cunha Leal
Gestão do Projeto: André Cunha Leal e Fernando Santos
Produção Executiva: Clarissa Bessa, Ion Live
Equipe "Transforma o Teu Bairro": Ana Carolina Arnandes Soares, Ana Zorro, Daniela Chahnazi, Pedro Soares e Yasmin Lozano
Ficha Artística
Ópera
Título: "Candinho"
Compositor: João Guilherme Ripper
Libreto: João Guilherme Ripper (baseado em memórias e poemas de Cândido Portinari)
Ano de criação: 2022
Duração aproximada: 60 minutos
Idioma: Português
Estrutura: Um ato, dez cenas

